Amigos para sempre (2019)

Somos ambos “intocáveis” em diversos aspectos. Abdel, de ascendência do Norte da África, sentiu-se marginalizado na França — tal como a classe dos intocáveis na Índia. Não se pode “tocar” nele sem o risco de levar um soco, e ele corre tão rápido que os tiras — repetindo sua palavra — conseguiram pegá-lo apenas uma vez em sua longa carreira de delinquente.

Quanto a mim, atrás dos altos muros que cercam minha mansão em Paris — minha gaiola dourada, como diz Abdel —, abrigado da necessidade graças à minha fortuna, faço parte dos “extraterrestres”; nada pode me atingir. Minha paralisia total e a ausência de sensibilidade me impedem de tocar o que quer que seja; as pessoas evitam até roçar a minha pele, tamanho o medo que lhes causa minha condição física, e ninguém pode me tocar o ombro sem desencadear dores lancinantes.

“Intocáveis”, portanto.

Intocáveis, Pozzo di Borgo.

Abdel Sellou à direita ao lado de Philippe Pozzo di Borgo, a dupla que inspirou o filme Amigos para sempre. Crédito : Perdesen.

A historia contada em Amigos para sempre (The upside, 2019) é nossa velha conhecida. Baseada em fatos reais, foi inspirada no encontro de Philippe Pozzo di Borgo e Abdel Sellou. O primeiro um alto aristocrata, herdeiro e executivo parisiense e um imigrante argelino que trocou seu país aos 4 anos de idade, indo morar na capital francesa. O encontro dos dois acontece após um acidente de parapente que deixa Philippe tetraplégico em 1993: ele precisa de um cuidador para acompanhá-lo em seu cotidiano.

É o tipo de filme feito para emocionar e ao mesmo tempo divertir. Plateias brancas.

Auxiliaire de vie

Dessa improvável amizade nasce o livro que vai inspirar a publicação de O segundo sopro (Le Second Souffle, 2011) e mais tarde sua primeira adaptação para o cinema, Intocáveis (Intouchables, 2011). A primeira adaptação desbancou O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001) como a maior bilheteria do país e de um filme francês fora da França em 2012.

Quem conta um conto aumenta dois pontos: é nas mãos de Olivier Nakache et Éric Toledano que a personagem de Abdel sofre uma importante mudança ao ser interpretado pelo ator e humorista francês Omar Sy para caracterizar um imigrante senegalês Driss que será o auxiliaire de vie de para François Cluzet como Phillipe. Em sua versão norte-americana o elenco também chama a atenção: Phillip Lacasse, não mais um herdeiro mas um ambicioso yuppie que pavimenta seu próprio caminho, é interpretado por Bryan Cranston. Dell Scott será vivido por Kevin Hart, tendo como coadjuvante Nicole Kidmann.

Francois Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny em Intocáveis, a versão francesa de 2011. Créditos: Kidmaniacs.

A versão francesa que estabelece o tom para a americana, recebeu uma breve mas uma breve mas eloquente crítica no St. Louis Post-Dispatch, reproduzida no Rotten Tomatoes:  “A postura descontraída e o elenco forte impedem que Intocáveis tropeçam em questões inquietantes de raça, classe e deficiência.”

Parece que chegamos a algum lugar. Tanto Cranston (o inesquecível Hal de Malcolm, 2000) como Hart são comediantes e atores experimentados. A sua capacidade de fazer rir e chorar distrai o público menos atento. Nada poderia descrever tão bem um roteiro em que os mundos onde vivem as duas personagens centrais jamais se tocam exceto através de Lacasse e Scott que em raras ocasiões “tropeçam” em questões de raça, classe, deficiência e também gênero.

Questões inquietantes

Chama a atenção uma cena em que Scott toma seu primeiro banho, agora que mora com seu empregador. O box do chuveiro além de ser enorme, é completamente automatizado e provavelmente pouca gente no mundo saberia usá-lo. A única saída é apertar todos os botões e ver o que acontece. Depois, tentar entender o que diz em alemão sua inteligência artificial enquanto jatos de água são arremessados em todas as direções.

É justamente nos momentos em que Scott não se encaixa que a audiência. Ou ainda quando um outro bilionário amigo de Lacasse compra uma pintura no valor de 50 mil dólares feita pelo homem negro que ele não quer frequentando o prédio em que os dois moram.

A parte “inquietante” da trama fica por conta de Aja Naomi King, uma atriz norte americana que interpreta a companheira de Scott, Latrice. É sua personagem quem coloca o ex-presidiário para fora de casa argumentando que ele não participou da criação de seu filho e que ele tem sorte em não ser denunciado por dever tanta pensão alimentícia.

Nessun dorma

Porém, essa é a exceção. A sujeira sempre será jogada para debaixo do tapete, mesmo cheirando muito mal.

Amigos para sempre, Divulgação.

Há no entanto um momento em que já não é mais possível esconder o verdadeiro teor da relação que aproxima as duas personagens, pelo menos no roteiro. Quando Lacasse, surpreendido por uma festa de aniversário, tem uma explosão de raiva fica enegrecido que o corpo negro de Scott, além de tirar e colocar cateteres, será o instrumento pelo o pobre homem rico vai se expressar tanto alegria como raiva, tal como um invasor de corpos.

E apesar de o roteiro subliminarmente insistir que a natureza do serviço prestado não pode ser precificado, na verdade é. Scott recebe semanalmente um salário de quase 3 mil dólares. Mais tarde, com os 50 mil recebidos pela venda de um quadro, ele levará Latrice e seu filho para uma casa que não está caindo aos pedaços.

A única personagem lúcida da trama estava errada.

Show CommentsClose Comments

Leave a comment