Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.

Conceição Evaristo

Quando convidada a falar sobre as Blogueiras Negras no lançamento do Relatório Direito à Comunicação 2018 do Intervozes, fui com muita generosidade e cuidado provocada pelas companheiras Larissa Santiago e Viviane Gomes sobre os desafios que a tecnologia 5G representa para corpos negros.

Até esse momento, aquele pequeno detalhe na tela do celular onde lemos 3G e 4G só me servia para saber se a conexão estava boa. Como diz Yuri Marçal, ledo engano!

Então a primeira coisa a ser dita é que a linha de pensamento que traço aqui é um esboço e tem a única pretensão de realmente avaliar um cenário mas nunca oferecer respostas únicas e redondinhas. Muito menos pretende ser um ponto de vista abrangente, afinal falar de 5G ainda significa pensar nas cidades consideradas globais.

Uma lista que não contempla mais que cem delas em todo o planeta. E que não dá conta de todas as contradições que esse seleto grupo apresenta, uma vez que cidades também carregam identidades e substâncias próprias. Que são quase sempre múltiplas e marcadas por diferenças de ordem cultural, econômica, social e étnica.

Vista do Instituto Moreira Salles, arquivo pessoal.

Aqui temos como cenário uma das três centralidades de uma cidade ao sul do Equador, inserida numa lógica neoimperialista. Um bom exemplo seria a cidade de São Paulo, com a Avenida Paulista, onde está situado o Instituto Moreira Salles. Se por um lado essa parte da cidade concentra as narrativas de uma cidade de grande potência cultural, também concretiza os mais diversos racismos estruturais ao mesmo tempo que te sido um espaço de disputa simbólica, como acontece no dia 20 de novembro.

§ URBANISMO & COMUNICAÇÃO

Sérgio Amadeu defende que “sociedades são estruturas comunicativas. Não por outro motivo, os meios de comunicação sempre interessaram todos aqueles que têm ou querem ter poder ou influência sobre a sociedade.”

Se entendermos a própria tecnologia 5G como instrumento desses interesses, precisamos refletir criticamente diante da apropriação que a indústria da Telecomunicação tem feito da ideia de fazer e ter direito à cidade. Esse é o tema desse texto, com toda a liberdade que esse espaço me permite. Mesmo que num primeiro momento sem nenhum compromisso com a brevidade, ainda que de maneira superficial segundo os parâmetros acadêmicos.

Sempre observando que está é uma discussão localizada num contexto bastante restrito. Não podemos imaginar que essas observações sejam válidas para todas as cidades, o que seria impossível ainda que considerássemos apenas o pequeno conjunto que esta implementando a tecnologia 5G. Insistimos que bom parâmetro para delimitar nossa discussão talvez seja imaginarmos uma cidade no início do século XXI, com um prolongado histórico colonial, situado ao sul do equador, com profundas desigualdades sociais, culturais e econômicas, e que pudesse abrigar um episódio de uma série de ficção-científica como Black Mirror.

Anthony Mackie no episódio ‘Striking Vipers’, de ‘Black Mirror’, em cena filmada no Viaduto Santa Ifigênia (Netflix/Divulgação)

Talvez estejamos diante de um novo avatar do Pós-Urbanismo e seu fetiche pela inovação: se há pouco a ideia era transformar a «cidade numa galeria de arquitetura ao céu aberto» como defendeu Carl Giometti, podemos imaginar o que aconteceria se arquitetos e urbanistas imaginassem concretizar a metáfora do filme Tron só que trocando o fliperama pelo celular.

§ TEMOS UM PROBLEMA

Uma longa genealogia de pensamento se dedica à tensão, amigável ou bélica, entre homem e a tecnologia. Antes de morrer, Stephen Hawking parece ter se dedicado a nos alertar que «uma inteligência artificial super inteligente será extremamente bem sucedida em atingir suas metas, e se elas não forem alinhadas com as nossas, temos um problema». O problema foi bem explorado pelo longa Ex-Machina (2014) ao construir uma metáfora sobre a crueldade das salvaguardas para impedir o surgimento e a liberdade de uma nova forma de vida.

Desde O homem de areia de Hoffmann (1817) e Metrópolis (com a primeira robot do cinema em 1927) a ideia de um ser híbrido é uma fantasia recorrente nos cinemas e laboratórios. E durante um breve momento acreditamos que Garry Kasparov e Deep Blue poderiam tirar os nove fora sobre o futuro da humanidade. Porém antes de chegarmos ao momento em que a inteligência artificial se tornará uma nova forma de vida, precisamos lidar com os interesses de quem faz tecnologia hoje. Sobretudo agora que não estamos dedicados apenas a criar indivíduos artificiais mas cidades autômatas.

Gasparov versus Deep Blue. Imagem © AFP

Em um cenário em que a tecnologia 5G transforma todo e qualquer objeto, equipamentos ou superfícies urbanas em potenciais sensíveis e conectados prontos a obedecer comandos de maneira imediata, qual será o lugar dos corpos considerados descartáveis nessa “nova” cidade?

Falar da Cidade 5G demanda em primeiro lugar entender que não estamos assistindo à sobreposição dos territórios virtuais e analógicos, afinal sempre se confundiram.

A subjetividade humana sempre foi multiplicada em si. Para as Cosmologias Afrobrasileiras, para quem Orum e Aiyê se espelham e complementam formando uma única realidade, é impossível imaginar que uma humanidade unidimensional. De modo que a surpresa sentida pelo ingênuo e descompreendido Senhor Goliádkin em O duplo (1846) de Dostoiévski ao encontrar a si mesmo é uma anedota corriqueira apenas no modo de pensar não africano.

Desde a invenção dos telefones inteligentes, cada indivíduo dentro das sociedades conectadas passou a ter mais uma existência adicionada a um conjunto de tantas outras que já existiam. Entretanto a natureza tecnológica dessa nova projeção fez com conceituássemos todas as demais como analógicas em contraposição aquilo que era digital. Nos fazendo imaginar que estávamos em dimensões diferentes ainda que o ambiente tanto da vida nomeada como real e sua imagem fosse o mesmo, a sociedade que os produziu.

O retrato de Dorian Gray (1890) nos ajuda a entender esse fenômeno. A imagem no espelho não poderia ser compreendida como uma mera projeção. Sempre foram parte da mesma narrativa, constituindo um só indivíduo cujo desfecho estava posto desde o primeiro momento e não deveria ser uma surpresa para ninguém.

Infelizmente muitos compreenderam tardiamente que sempre estivemos dentro do mesmo plano ou contexto, advogando que o efeito de blogues e mais tarde redes sociais sobre a realidade seria limitado. A virada definitiva desse argumento, se é que ainda permanecia, foram os efeitos Obama e Trump nas eleições norte americanas e Bolsonaro aqui no Brasil.

Um exemplo bastante corriqueiro é chamar um motorista particular através de um aplicativo. O que a propaganda não conta é o que acontece quando a cliente veste roupas tradicionais, é negra ou travesti ou o destino é uma “área de risco”. A ameaça feita a Yuri Marçal por um motorista da Uber demonstra que realidade e projeção não estão apenas próximas ou conectadas, sempre foram um território único.

A tecnologia apenas acirra as violências e o embate de interesses entre aqueles que o ocupam. O Racismo não é um fenômeno natural, é um algoritmo que se atualiza com grande velocidade e permanece historicamente, o modo como acontecem nas redes sociais e aplicativos nada mais é que a mais recente de suas inúmeras versões. A permanência de uma sociedade capitalista que se alimenta desse mesmo Racismo depende de uma ferramenta que consiga emular suas necessidades. .

A grande novidade quando o assunto é a tecnologia 5G não é o entendimento de um mundo que reproduz sua própria imagem dentro de si mesmo. Uma sociedade racista logicamente iria produzir algoritmos analógicos e digitais racistas. O grande perigo mora na sua capacidade de nos fazer acreditar que uma pequena parte do conjunto é o todo. Num mundo onde até mesmo as tragédias ambientais são uma oportunidade de negócios, contradições como a ideia de Cidade 5G são perfeitamente compreensíveis. A uberização da vida também é a da cidade.

E muitos advogarão que isso é Urbanismo, assim como acreditam que fazer carro andar é Planejamento. Prevalece desconsiderar valores democráticos e interesses sociais enquanto se faz propaganda de que basta implementar superfícies e equipamentos urbanos inteligentes e projetar edifícios trabalhando em rede. Tudo isso para desviar os olhares de que urbanistas e teóricos estamos nos concentrando em uma pequena parte de nossa tarefa que é desenhar uma sociedade capaz de promover direitos, ainda que isso seja uma grande presunção de nossa disciplina.

Assim, não é novidade que a lógica da Liberdade de Ofensa permaneça na Cidade 5G. Elas serão opacas, fazendo que os corpos mais afetados por seus mecanismos não compreendam seu funcionamento e não possam reagir. Além disso vão afetar de maneira crucial a vida de cidadãos, principalmente no que concerne o acesso a direitos. Estarão interessadas em padrões locais, não universais. Uma tendência histórica que pode ser caracterizada desde a ascensão dos Estados Modernos, cujo maior ponto de interesse é a reedição de atrocidades históricas, como assinala Edson Cardoso. Os filtros se tornaram as mais novas tecnologias de destruição em massa.

§ NECROPOLÍTICA

Pensando apenas nas duas últimas décadas, vimos como as teorias corporativas do Planejamento Estratégico ainda tem consequências graves na gentrificação das cidades como São Paulo e São Luís. Como populações tradicionais foram removidas para que grandes espetáculos esportivos fosse implantados. Agora, com o chamada Quarta Revolução Industrial, o Urbanismo se debruça sobre as tecnologias digitais com a mesma pompa e circunstância com que Sophia, a robot, ganha destaque ao entrevistar Cristiano Ronaldo para uma marca.

Enquanto isso, podemos imaginar o que está sendo dito quando empresários buscam entender essas « novas » oportunidades de negócios. Para corpos descartáveis, para quem a Internet das Coisas significa muito mais que privadas capazes de dizer se estamos com os níveis de glicose alterados, a tecnologia 5G é a confirmação da regra. E se fossem aprovadas leis que tornassem consideráveis, para a aplicação de sentenças e em nome da segurança, a probabilidade calculada pelo algoritmo de alguém cometer um crime?

Nenhum argumento é capaz de nos desviar dessas questões centrais enquanto a robótica se dedica a nos reafirmar como objetos e planejadores urbanos tecnicistas desenham mecanismos cada vez mais sensíveis de vigilância e controle. Para alguns é sobre fazer sexo com um geminóide de última geração. Para nós é sobre morrer, sobretudo em um momento em que presenciamos a Direita chegar ao poder em todo mundo e controlar e planejar cidades permanece um projeto necropolítico central, agora com um aparato tecnológico mais elaborado. Imediatamente lembramos que ao imaginar a cidade de Los Angeles em novembro de 2019, Ridley Scott sequer escalou atores negros em 1982.

No filme Eu, Robô (2014) a vida de Will Smith foi considerada mais relevante do que aquela de uma menina que tinha 11% de chances de sobreviver. Afinal, um protagonista preto que rende uma bilheteria de quase 350 milhões de dólares é um ótimo parâmetro para o algoritmo. Porém, o que aconteceria se tecnologia 5G e suas descendentes viessem a dizer que gente como Willard Carroll Smith Jr, um menino negro e anônimo, tem a capacidade de aprender reduzida?

Cena de Eu robô com Will Smith.

E se as vagas nos espaços de poder como escolas e universidades, cargos de comando nas empresas e outras áreas estratégicas, fossem calculadas segundo a probabilidade de sucesso segundo os padrões corporativos que são pensados para que, com muita sorte e acumulando trabalho e esforço ao longo de gerações, poucos de nós consigam atingi-los? E se o algoritmo disser que você seria mais feliz em outra área de trabalho que não aquela que você deseja para si?

E se os leitos dos hospitais fossem destinados de acordo com as chances que alguém tem de enfrentar um diagnóstico? A vida de uma atriz branca convivendo com a mutação genética BRCA que predispõe ao câncer de mama em 87% das previsões recebeu atenção da imprensa mundial. Mas e se esse corpo fosse de uma mulher negra, idosa, pobre e periférica? E se nossa saúde mental e física pudesse ser estatisticamente mesurada?

Olhar para o modo como nossas sociedades tem pensado as narrativas sobre a tecnologia, também nos ajuda a entender o lugar dos corpos descartáveis numa guerra de braços entre a China, Estados Unidos e Europa pela supremacia geopolititecnológica do mundo, independentemente de quem venha a ganhar.

Obviamente as oportunidades abertas por essa nova indústria são alarmantes. Mas o que há de mais perigoso sobre a tecnologia 5G são as reedições culturais que a precedem: uma sociedade cada vez imediata, desmemoriada e cuja inteligência coletiva tem se tornado inversamente proporcional à sua capacidade de processamento de dados. Talvez a personagem Maria de Fritz Lang não é a prima de segundo grau de Frankenstein, mas o desejo de uma cidade automatizada que não antecipava, mas denunciou um horizonte que se torna possível somente agora.

§ REFERÊNCIAS

O que é o 5G e como ele pode mudar as nossas vidas. https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2018/07/o-que-e-o-5g-e-como-ele-pode-mudar-nossas-vidas.html

O que é %G e como ela vai mudar o mundo. https://usemobile.com.br/5g/

Revista Problemas Brasileiros #447 A quarta revolução industrial. http://www.fecomercio.com.br/public/upload/file/2018/09/10/pb447_tela_final.pdf

5G, Smart cities & Communities of color. https://jointcenter.org/sites/default/files/Joint%20Center%205G%20Smart%20Cities%20And%20Communities%20of%20Color_Final%206.9.17.pdf

Cidade aumentada – design e criatividade como elementos transformadores dos territórios urbanos. https://ied.edu.br/sao_paulo/evento/cidade-aumentada-design-e-criatividade-como-elementos-transformadores-dos-territorios-urbanos/

Campina Grande está na lista de ‘cidades teste’ para o 5G no Brasil. https://www.portalt5.com.br/noticias/paraiba/2019/5/218659-campina-grande-esta-na-lista-de-cidades-teste-para-o-5g-no-brasil

Stephen Hawking warns AI may humans all together. https://www.independent.co.uk/life-style/gadgets-and-tech/news/stephen-hawking-artificial-intelligence-fears-ai-will-replace-humans-virus-life-a8034341.html

Integrating Urbanisms: Growing Places Between. New Urbanism and Post-Urbanism. http://apps.acsa-arch.org/resources/proceedings/uploads/streamfile.aspx?path=ACSA.AM.94&name=ACSA.AM.94.35.pdf

Shanghai Becomes World’s First City With 5G Network Coverage: Report. https://www.ndtv.com/world-news/shanghai-becomes-worlds-first-city-with-5g-network-coverage-report-2015195

Published by Charô Nunes

Eu escrevo.

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