Womenwill com Rachel Maia

Talvez os talentos tenham se tornado invisíveis aos olhos de muitas corporações por sua incapacidade de construir pontes que os levem até os diamantes que se escondem nas periferias, nas escolas públicas, nas faculdades “populares”. Eu sei… porque eu estava lá.

Rachel Maia

A convite da Google, através de Amanda Garnero, participei de um evento que até o momento era desconhecido para mim: o WomenWill nos dias 13 e 14 de novembro na sede do Google Campus em São Paulo. Esse foi o último de uma série de 12 edições mensais, sendo que pela primeira vez o público era formado especialmente por mulheres negra que teríamos a  oportunidade de ouvir Raquel Maia. A única mulher negra ocupando o cargo de CEO no país e que estou acostumada fazer através de imagens, mas nunca respirando do mesmo oxigênio.

A plateia era composta por aproximadamente 90 selecionadas, para um universo de 1000 interessadas. Com uma peneira tão rigorosa, nossa tarefa era de multiplicar tudo que ali compartilhávamos. Esse é o intuito desse texto, contar um pouco como foi essa experiência, que acontecia quase que em paralelo com o Encontro Nacional de Mulheres Negras em sua edição de 30 anos.

Maia fez questão de estar nesse evento, segundo ela mesma porque a Google nunca a havia convidado antes. Muito bem humorada, abreviou sua apresentação para falar sobre um pouco sobre sua trajetória como contadora, passando pelos mestrados, premiações e o lugar no mundo do seu corpo como mulher e negra, para depois abrir espaço para o diálogo. Também demonstrou grande interesse na escrita, (única) colunista negra da revista Forbes no Brasil e também integrando o time de pretas da revista Marie Claire.

Maia: arquivo pessoal.

Ela nos contou um pouco sua história, como o nascimento de sua filha e um comentário que lhe foi feito durante uma cerimônia de premiação. Ocasião em que teve de ouvir que não mas era uma mulher e não mais era negra, agora que se tornara uma das mais poderosas executivas da América Latina. Foram precisos alguns meses até que ela pudesse verbalizar seus sentimentos sobre o que foi dito então.

Também mostrou fotos de sua família e contando a trajetória de seu pai declarou sempre escolher muito bem quais as batalhas que enfrenta, muitas vezes descrevendo a si mesmo apenas como mulher, outras vezes como negra. Foi o que aconteceu após estampar mais uma capa de revista e ver o ódio chegar muito perto de si e de sua família.

Uma das palestrantes dessa mesma manhã, Fernanda Ribeiro, salientou a necessidade de andarmos com pessoas que nos desafiam a construirmos redes. Nos convidou estarmos com companheiras de vida e de luta, citando a executiva que, ao ser convidada para participar de um jantar no ano passado com ex-presidente Obama, foi fotografada ao lado de Taís Araújo e Maria Júlia Coutinho.

Confesso que nesses momentos Maia é uma figura deveras interessante. Quando fala que sua vida como alta profissional dos negócios não é sem emoção ou desafios. Por outro lado, o modo como pronuncia seu próprio nome e cita palavras de um inglês, desses que só conhecem aqueles que falam o idioma com grande fluência, nos revela o quão distante é seu seu mundo. Que aliás, já foi muito desejado por mim, confesso.

Foi exatamente isso que me fez sair de casa e cruzar partir da cidade para ouvi-la. Imagino se um dia poderemos conversar sobre uma possível sociedade sem racismo, machismo, transfobia (o grande público ali era de mulheres cis) e como poderíamos chegar até lá. Imagino que o papo não se daria sem conflitos estratégicos mas que também seria recheado de boas risadas, comentários sobre coisas que descobriríamos em comum.

Apesar de nosso modo de operar e visão de mundo serem muito díspares, adoraria falar um pouco mais com Maia sobre nossos corpos, cuja a simples presença no mundo é uma grande ameaça. Ou ainda, como ganhar dinheiro e pagar contas se ativismo não é profissão, indagar sobre qual é a sociedade que estamos planejando entregar para o futuro.

Qualquer resposta precisaria considerar um universo complexo de experiências e lugares de fala. Mas trago boas novas – felizmente superamos a palavra empoderamento, ao menos pro forma. Nos resta saber como podemos descolonizar nossas práticas. Dá para falar de um capitalismo desprovido de discursos meritocráticos? Dá para falar da superação do racismo dentro de um sistema que se alimenta dele?

Dá?

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